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20º dia: Música pra quê?



Para acordar, no despertador. No café da manhã. No som do carro pra abrandar o trânsito. No fone de ouvido ou nas caixinhas de som do computador. Nas praças de alimentação, em horário de almoço. Pra relaxar do trabalho na volta pra casa. Happy hour ou malhação. Música para meditar, Música para dormir. Se, como diz Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta, a Música é o condutor de nossa dança. Sem ela andamos pela vida. Com ela, dançamos. Mesmo em situações tristes, em derrotas, uma trilha sonora está lá para não deixar perder o ritmo. Para não deixar esquecer de ir ao baile. Para deixar claro para nós que a vida, independente de quando boa ou ruim, é uma eterna celebração.

Conseguiríamos viver sem Música? Segundo Nietzsche, filósofo alemão, a Música nos oferece momentos de verdadeiro sentimento; só a Música colocada ao lado do mundo pode nos dar uma ideia do que deve ser entendido por justificação do mundo como fenômeno estético. E que “sem Música a vida seria um erro”. Estas afirmações rebuscadas parecem exagero, mas explicar a importância do papel da ciência dos sons é uma tarefa complexa. Pois, a Música consegue ser simples como o barulho de um chocalho que distrai um bebê e transcendental ao ponto de conduzir meditações e rituais espirituais. A vida ausente de Música torna-se monótona e mecânica.

Imagine um casamento sem Música. O silêncio sem graça numa chegada de competição. Uma festa ao som disperso das conversas dos convidados. Agora, um aniversário sem parabéns pra você. Ou um mundo sem violão. Pense nos pássaros calados, sem canto. Nos filmes sem trilha sonora, na ausência de shows. Como apaixonar-se por alguém em silêncio? Sem aquela Música que nos leva e eleva ao ponto mais alto do amor? E talvez o pior cenário de todos: uma vida sem o verbo Dançar. É como se o corpo vivesse sem alma. Um vazio inexplicável e ensurdecedor. Duro, não?


É comprovado cientificamente que o coração sincroniza seu batimento ao ritmo de uma Música que esteja tocando. É um efeito físico e involuntário. Ela tem o poder de alterar nosso humor. Não é a toa que a Musicoterapia tem sido cada vez mais reconhecida no tratamento da dor e de doenças como o autismo. A Música é a prova viva de que o imaterial existe sob forma de som. Impossível de ser palpável, porém atomicamente auditivo e sensitivo ao coração, à pulsação. Uns a chamam de voz de deus. Dificilmente alguém pensa em religiosidade sem pensar em Música. Sacra, gospel, mantras, cânticos. Sem distinção de crenças, o divino é característica intrínseca da Música.

“Hoje todo tipo de som, independente se é bom ou ruim. É ótimo!” Declaração de Priscila Soares a um programa de tv, que aos 17 perdeu a audição. Após oito anos, colocou um implante auditivo, reaprendeu os sons e relembrou as músicas dos Back Street Boys que marcaram sua vida.

Preparar profissionais para levar Música e entretenimento para os quatro cantos do mundo, este é o trabalho de duas principais escolas de Música do país: a Escola de Música de Brasília e a Bituca – Universidade de Música Popular, em Barbacena. Duas escolas livres e gratuitas, que formam artistas com caráter profissionalizante.

Agora, imagine também, um casamento com Música, as entradas, a Valsa, a banda tocando. A euforia saindo dos alto falantes celebrando a vitória. Uma festa ao som contagiante de todas as músicas que marcaram época, os convidados dançando. E o aniversário? Parabéns pra você com direito a coral de “com quem será”. Toda a variedade de instrumentos musicais existentes no mundo e suas fábricas de sonhos. Pense no canto dos pássaros felizes com a chuva. Nas emocionantes trilhas dos filmes, na infinita programação de shows. Lembre-se daquela Música de quando você se apaixonou! Quase o fez largar tudo. E o melhor de todos os cenários: a certeza que de a vida é uma Dança! E nem precisamos de muito. Porque "com apenas 7 notas foram feitas todas as Músicas do mundo!" Lindo, não?

rica 

16º dia: Preconceitos musicais



João que gostava de funk amava Roberta que dançava calypso que amava Mateus que gostava de reggae que amava Juliana que curtia Rock que amava Fernando que gostava de sertanejo que amava Cristina que não ouvia ninguém. João morreu no morro, Roberta se converteu, Mateus virou Rasta, Juliana enlouqueceu, Fernando voltou ao Goiás e Cristina foi abandonada na Igreja por Maurício, após saber que ela ouvia Justin Bieber escondido. Poucos encontros, muitos preconceitos.

“Quem não gosta de samba bom sujeito não é.” Já dizia Dorival Caymmi. E antes de sugerir culpa no cartório, é bom lembrar que este ilustre músico baiano deixou grande legado para a música brasileira. Inequivocamente, não foi ele quem incitou uma espécie de preconceito musical que atrapalha o sossego dos ouvidos. O fato é que estereótipos foram criados ao longo do tempo pelo senso comum.

Estilos de música consumidos por classes mais pobres são as maiores vítimas. Quem nunca reclamou do som alto do celular de um funkeiro desprovido de fone, no ônibus? Surgiram até campanhas na web para “conscientizar” estes MCs quanto às regras de etiqueta, moral e bons costumes. Os carros com o batidão acionando os alarmes alheios, os sertanejos nas esquinas de finais de semana saindo do porta-malas das Hilux com adesivo de boiadeiro. Suingueira, forró universitário, pós-graduado e doutorado. Doutorado mesmo só Luiz Gonzaga, diga-se de passagem.


Ninguém reclama dos clássicos. De fato, é raro (quase impossível) ver um carro passando com Chopin no volume máximo. Ou ao som “estridente” do banquinho e do violão de João Gilberto. Isso sim me parece louco. Mas, e se ao invés do funk carioca fosse um rock, um reggae ou mesmo um samba, teria o mesmo incômodo? Sim. Nem só de letra se faz música e o repertório de gostos é vasto. Existem vários funks com letras positivas que ao contrário da maioria não exaltam a visão rotulada de baixa cultura. Assim como também, vários hinos do rock que cultuam a trindade: sexo, drogas e rock’n roll. Falhe-me a memória, volume no talo era sinônimo de outro tipo de música.

As músicas da moda podem até não ter tanto conteúdo o quanto acham que deveria ter. Mas deixam muito mais sorrisos no rosto do que caras carrancudas intelectuais. Críticas vão existir sempre no mundo da música. Rixas entre cantores e instrumentistas de gêneros distintos são rotineiras desde quando se descobriu o dó-re-mi-fá-sol-lá-si. Se gostamos do artista, vez em quando, tomamos as dores. É uma coisa que não dá muito para separar. Alguns teóricos metidos à besta descem o sarrafo em cima dos Mestres de Cerimônia da atualidade. Os bambas do samba, por sua vez, minam toda a esperança de adolescentes que estão aprendendo a fazer o bom e velho rock, mesmo que de forma colorida.

A despeito das dancinhas de verão, existem axezeiros que ainda mantêm a linguagem da história cultural em suas letras, e não precisam apelar para a sexualidade caça-níquel. Qualquer lado que se defenda na música, automaticamente gera um preconceito sonoro. As últimas edições do Rock ‘n Rio foram marcadas pela diversidade de estilos musicais e muitas críticas ao conceito inicial do festival.


Parece difícil chegar a um consenso quanto ao direito e a liberdade de escolha, sem se prender a estilos de vida ou mesmo a um jeito de se vestir. É o bullying atuante no universo de gostos musicais das pessoas. A onda sonora que guarda suposta superioridade de alguns gêneros musicais tradicionais. Por mais eclético que seja, um músico nunca poderá agradar a gregos e troianos. É premissa básica. Clichê. Todos os estilos têm seu valor. Há quem ame e quem odeie. A discussão que evolui é saudável, traz o novo. Toda a música é válida se algum dia fez alguém feliz.

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